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30 anos de investimento temático

Ações ativo 8 min. de leitura
Conversámos com Hans Peter Portner sobre como a Pictet Asset Management desenvolveu a principal franquia de ações temáticas do sector.

Hans Peter Portner, responsável pelas ações temáticas na Pictet Asset Management, foi fundamental na criação do que a Morningstar reconhece como a principal franquia de investimento temático do mundo. Nesta entrevista, fala-nos sobre as origens, fundamentos filosóficos e os desafios dramáticos enfrentados pelos gestores de investimento.

Como surgiu a franquia temática da Pictet?

Lançámos uma estratégia de biotecnologia em 1995, numa altura em que o sequenciamento de ADN ainda era uma tarefa hercúlea e quase uma década antes de o genoma humano ser totalmente decifrado. Foi um momento de grande visão. Nos anos seguintes, construímos um sólido histórico, de modo que, quando o Nasdaq começou a disparar no final da década, a estratégia atraiu uma procura significativa.

Em 2000, numa altura em que toda a gente estava focada na Internet, começámos a analisar os dados e percebemos que tendências globais como a urbanização, a industrialização, o crescimento populacional e as alterações climáticas iriam influenciar a procura por recursos hídricos.

Estávamos, sem dúvida, no caminho certo, porque a nossa estratégia de água foi um sucesso desde o início: superou o índice global de ações em 7% ao ano, durante os primeiros três anos, atraindo um volume substancial de investimento.

Equipa de investimento original do fundo Water: Hans Peter Portner e Philippe Rohner, 2000.

Qual foi o seu papel no desenvolvimento da estratégia de água?

A estratégia de água foi, de facto, o ponto de viragem para o crescimento da franquia da Pictet Asset Management. Estive envolvido desde o início e, pouco depois, tornei-me o gestor principal da estratégia. Desenvolvemos um processo de investimento rigoroso, que acabou por servir de modelo para todas as estratégias que se seguiram.

A água tornou-se o núcleo da franquia. Pouco tempo depois, lançámos ainda mais estratégias, incluindo madeira, energia limpa, nutrição e ambiente global. Todas seguiram o modelo da estratégia de água e partilhavam princípios de investimento comuns, o que nos permitiu construir uma plataforma única para ações temáticas.

Do que mais se orgulha?

Tenho muito orgulho na equipa forte que construí em torno da ideia da estratégia global ambiental, que hoje é uma das maiores do mundo neste segmento. Inicialmente, era uma combinação linear das nossas estratégias de água, madeira, energia limpa e agricultura. Fomos pioneiros na aplicação do enquadramento científico dos limites planetários para definir o nosso universo de investimento (ver Fig. 1). Esta abordagem, aliada ao desempenho sólido da estratégia, tanto em termos absolutos como relativos face ao índice global de ações, permitiu-nos fazê-la crescer de forma significativa num curto espaço de tempo.

Figura 1 – Limites Planetários
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Fonte: Pictet Asset Management, Stockholm Resilience Centre.

Com dezenas de analistas de várias casas de investimento a analisar as mesmas empresas, como conseguem obter uma vantagem?

Não se trata apenas de analisar folhas de cálculo. Por exemplo, há cerca de 20 anos, participei numa conferência de empresas de água num hotel de luxo em Zurique. Os CEOs de duas das principais empresas americanas do sector estavam presentes. Na manhã do evento, chovia torrencialmente – o que até era apropriado para o sector. Cheguei completamente encharcado e deparei-me com o CEO de uma das empresas, seco e impecável, pois tinha ficado alojado no próprio hotel de luxo. Atrás de mim vinha o outro CEO, tão encharcado quanto eu, já que ficou num hotel económico e tinha viajado em classe económica dos Estados Unidos. Nesse momento, aprendi muito sobre as culturas de custos dessas empresas. Sempre preferi as ações da empresa do CEO mais frugal – e isso acabou por beneficiar o meu portefólio.

É importante fazer o trabalho de campo.

É importante, mas também é exigente. E, por vezes, as dificuldades vão muito além do jet lag ou das refeições apressadas nos aeroportos. Por exemplo, um dos nossos colegas, Philippe Rohner, tinha combinado uma reunião com a administração de uma empresa indiana de água no Hotel Oberoi, em Mumbai. Mal tinha feito o check-in, terroristas invadiram o edifício e abriram fogo com metralhadoras. O Philippe escondeu-se atrás do balcão da receção e, com a ajuda dos funcionários do hotel, conseguiu sobreviver ao massacre que acabou por tirar a vida a 166 pessoas.

Felizmente, estes acontecimentos horríveis são raros no nosso sector, embora se diga que, na indústria financeira, se nada com tubarões.

No décimo aniversário da estratégia de água, a nossa equipa de vendas de Paris alugou o Aquário do Trocadéro para um evento com clientes. Os convidados estavam sentados à volta de um dos enormes tanques e viram um mergulhador, com uma t-shirt com o meu nome, entrar na água. Ele nadou, literalmente, com os tubarões. Eu estava nos bastidores e, quando o mergulhador saiu do tanque, despejei um copo de água pela cabeça e entrei em palco a secar o cabelo com uma toalha. Ainda hoje há clientes que vêm ter comigo a perguntar como foi estar cara a cara com o “Tubarão”.

Figura 2 – Estrutura dos Megatendências

Fonte: Pictet Asset Management, Copenhagen Institute For Future Studies.

O que determinou o sucesso da Pictet Asset Management nas temáticas?

O sucesso da nossa franquia reside na nossa capacidade de inovar, em vez de seguir o mercado, e de basear as nossas ideias em megatendências de longo prazo (ver Fig. 1), em vez de modas passageiras. Isto é reforçado pela estabilidade da nossa governação e pela homogeneidade das nossas convicções e processos de investimento — embora, ao mesmo tempo, continuemos a afinar as nossas estratégias à medida que os temas vão evoluindo. Ao longo dos últimos 30 anos, conseguimos reunir e manter uma equipa muito talentosa a trabalhar em conjunto, baseada na confiança mútua, competência e tranquilidade em Genebra. Esta plataforma de investimento foi, por sua vez, apoiada pela rede de distribuição da Pictet Asset Management, que é verdadeiramente incomparável.

A amplitude e a profundidade da nossa franquia não têm rival. Construir um negócio destes exige tempo, paciência e uma visão estratégica. É como criar um grande parque — é preciso visão, uma perspetiva de longo prazo e os recursos para o fazer crescer e amadurecer. E depois há o nosso processo de investimento, com gestores especializados a investir em empresas com um foco igualmente especializado, a operar em sectores altamente dinâmicos.  

Como mantêm a vantagem em relação, por exemplo, a estratégias passivas?

Dedicamos muito tempo e recursos a analisar o posicionamento de cada tema, com o apoio dos nossos advisory boards – conselhos consultivos compostos por especialistas externos, académicos e profissionais do sector, que nos ajudam a moldar a nossa visão. Temos 14 advisory boards temáticos, com um total de 35 especialistas externos que complementam o nosso conhecimento interno. Esta profundidade de saber permite-nos reagir de forma oportuna e inteligente às mudanças tecnológicas.

Hans Peter Portner numa apresentação sobre Megatendências em 2012.

O investimento temático tem futuro?

Investir, no fundo, é apostar no futuro de algo – o futuro da alimentação, do trabalho, da medicina, das viagens, do consumo ou da produção industrial, por exemplo. O investimento temático representa uma abordagem muito focada sobre o futuro. É apenas uma das formas mais ativas de investir em ações. Com o apoio dos nossos advisory boards e de think tanks como o Copenhagen Institute of Future Studies (ver Fig. 2), continuaremos a analisar as tendências que inevitavelmente vão marcar o futuro. Ter uma vasta plataforma de produtos de ações temáticas permite-nos construir portefólios à medida, adaptados às necessidades e preferências específicas de cada investidor. Isto é especialmente interessante para clientes institucionais.

A franquia temática da Pictet Asset Management tem sido bem-sucedida porque reflete a filosofia de investimento do Grupo Pictet. Sempre tivemos uma abordagem de longo prazo. Se não se tem paciência para esperar, não se deve investir desta forma. E quando se adopta uma abordagem, é preciso acreditar verdadeiramente nela. Por exemplo, desde o início demos prioridade à responsabilidade. Levámos a sério os riscos sociais, ambientais e de governação. Muitos concorrentes aproveitaram a onda quando o ESG ganhou destaque. Muitos desses mesmos concorrentes já começaram a recuar agora que o contexto político mudou. Mas nós mantemo-nos fiéis, porque acreditamos que estes temas são realmente importantes.

Se pudesse recomeçar a sua carreira de investimento, faria algo de diferente?

Com a sabedoria que só se ganha com o tempo, teria definido as minhas convicções de investimento o mais cedo possível.

Em meados dos anos 90, quando ainda só tinha alguns anos de experiência como gestor de investimentos – antes de entrar na Pictet – herdei a responsabilidade de gerir o segmento de ações de um fundo de pensões. Uma das empresas do portefólio fabricava hardware tecnológico. As vendas iam de vento em popa e as ações estavam a valorizar rapidamente. Mas eu não conseguia perceber os fundamentos do negócio nem as suas perspetivas a longo prazo. Por isso, depois de ver as ações subir durante algumas semanas, decidi realizar mais-valias. A empresa era a Cisco.

Desde o momento em que vendi as ações até ao pico da bolha dot com – isto foi mesmo antes do boom tecnológico do final dos anos 90 – o preço das ações multiplicou-se por cerca de 20. Esta experiência ensinou-me duas coisas.

Primeiro, a importância de ser especialista no mundo do investimento. Ser apenas um construtor de portefólios e escolher as melhores ideias de um conjunto de analistas sectoriais não chega. É preciso ser um verdadeiro especialista no sector e ter um conhecimento profundo das empresas para conseguir gerar, de forma consistente, uma performance superior para os clientes a longo prazo. Em segundo lugar, que o mundo está a mudar mais depressa do que nunca, e estar do lado errado dessa mudança pode ter consequências muito negativas para os investimentos. É por isso que, na Pictet Asset Management, mantemos sempre o foco no longo prazo e no desenvolvimento das megatendências – e esse tem sido também o segredo do sucesso das nossas estratégias temáticas ao longo das últimas três décadas.